"O que nos impede na maioria das vezes de ter o que queremos,
de ser o que sonhamos, de fazer o que pensamos e aceitar com o
coração, é a ousadia que não cultivamos."
Colaboração de Thiago Zortea

Não te amo mais.
Estarei mentindo
dizendo que
Ainda te quero como
sempre quis.
Tenho certeza
que
Nada foi em
vão.
Sinto dentro de mim
que
Você não significa
nada.
Não poderia dizer
jamais que
Alimento um grande
amor.
Sinto cada vez mais
que
Já te
esqueci!
E jamais usarei a
frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que
dizer a verdade
É tarde
demais...
(leia do fim para o
começo)

Dá-me a Tua Mão
Dá-me a tua mão: Vou
agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre
foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo
que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha
de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música
existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre
dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um
intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial está a linha de
mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a
respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e
chamamos de silêncio.

Meu Deus, me
dê a Coragem
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e
cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a
coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça
com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em
êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio
tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre
e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem
odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com
que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me
sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me
enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo
assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em
teus braços o meu pecado de pensar.

Estrela Perigosa
Estrela perigosa Rosto ao
vento Barulho e silêncio leve porcelana templo
submerso trigo e vinho tristeza de coisa vivida árvores
já floresceram o sal trazido pelo vento conhecimento por
encantação esqueleto de idéias ora pro
nobis
Decompor a luz mistério
de estrelas paixão pela exatidão caça aos
vagalumes.
Vagalume é como
orvalho Diálogos que disfarçam conflitos por explodir Ela
pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida
cheia nodosas raízes. Missa negra,
feiticeiros.
Na proximidade de
fontes, lagos e cachoeiras braços e pernas e
olhos, todos mortos se misturam e clamam por
vida.
Sinto a falta dele como
se me faltasse um dente na
frente: excrucitante.
Que medo alegre, o de te
esperar.

A Lucidez Perigosa
Estou sentindo
uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e
comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um
cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se
precise.
Estou por
assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo
aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu
mesma, e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha
lucidez pode-se tornar o inferno humano – já me
aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária e permanente acomodação
resignada à irrealidade – essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois,
minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os
dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.
Eu consisto, eu consisto, amém.

Mas há a Vida
Mas há a
vida que é para ser intensamente vivida, há o
amor.
Que tem que
ser vivido até a última gota. Sem nenhum
medo.

A
Perfeição
O que me
tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão
absoluta.
O que for do
tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem
uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de
alfinete.
Tudo o que
existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a
verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos
adivinhando, confusos, a perfeição.

Não mata.
Clarice
Lispector
(1926-1977)
Clarice
Lispector nasceu em 1926 na Ucrânia e, ainda pequena,
mudou-se com a família para Recife, Pernambuco. Mais tarde,
veio para o Rio de Janeiro, onde estudou Direito. Durante a
Segunda Guerra Mundial, trabalhou em Nápoles, Itália, no
hospital da Força Expedicionária Brasileira. Após a guerra,
morou na Suíça e nos Estados Unidos.
Seu primeiro romance, Perto
do coração selvagem, escrito aos 17 anos, foi publicado em
1944 e lhe valeu o Prêmio Graça Aranha. Depois de publicar
A maçã no escuro (1961), despertou o interesse da
crítica literária que a situa, junto com Guimarães Rosa, no
centro da ficção de vanguarda. Em sua obra descobre-se um uso
intenso da metáfora, atmosfera íntima e ruptura com a
realidade baseada em fatos, principalmente em A paixão
segundo G. H. e Uma aprendizagem ou o Livro dos
prazeres.
No contexto da nova literatura
brasileira, a obra de Clarice Lispector se destaca pela
exaltação da vivência interior e pelo salto do psicológico
para o metafísico. No plano ontológico, Clarice produziu o
encontro entre uma consciência e um corpo, em estado de
materialidade neutra. Em sua narrativa podem ser identificadas
várias crises: do personagem-ego, não através do intimismo,
mas na busca consciente do supraindividual; da narrativa,
através de um estilo inquisitivo; da função documental da
prosa romanesca — Clarice parte do presuposto de que toda obra
é romance de educação existencial.
De sua vasta produção literária,
desde A cidade sitiada (1949) até A bela e a
fera (1979), merecem ser lembrados os contos de Laços
de família e A legião estrangeira e os romances
A imitação da rosa (1977), Água viva (1977),
A hora da estrela (1977, filmado por Suzana Amaral em
1985) e Um sopro de vida (1978). Morreu no Rio de
Janeiro em 1977.
Fonte:
Enciclopédia Encarta - 2000 Microsoft
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